terça-feira, 20 de outubro de 2015

«Somos nós as grandes especialistas em família», Lucetta Scaraffia, no dia em que as mulheres agitaram o Sínodo


Há muita expectativa – não só entre os católicos – pelos resultados deste Sínodo. A crise da família já está se manifestando em todo o mundo, embora com modalidades diferentes, e arrasta consigo toda a sociedade que não sabe para onde direcionar as próprias energias: se um retorno ao passado é impossível, não está claro qual pode ser o futuro para essa instituição fundamental.

trechos da intervenção da historiadora italiana Lucetta Scaraffia 
na sessão plenária do Sínodo dos bispos sobre a família, na última sexta-feira, 16 de outubro. Scaraffia é membro do Comité Italiano de Bioética e professora da Universidade La Sapienza de Roma. O artigo foi publicado no jornal Il Messaggero

A Igreja contribuiu de modo determinante para definir e disciplinar a família. Agora, portanto, encontra-se em uma condição privilegiada para propor modelos de família novos e adaptados aos nossos tempos, fiéis à vocação cristã.

Para fazer isso, porém, ela precisa escutar a realidade e os sujeitos reais da família, isto é, os homens e as mulheres: homens e mulheres de verdade, mas especialmente mulheres que viveram e refletiram sobre a grande mudança do papel feminino no último século, uma das razões fundamentais da crise da família.

A Igreja precisa escutar as mulheres, escutar o que elas consideram ter perdido e o que ganharam na grande mudança, escutar qual família elas gostariam hoje.

Porque só na escuta recíproca opera-se o verdadeiro discernimento.

As mulheres são as grandes especialistas em família: se sairmos das teorias abstratas, podemos nos dirigir especialmente a elas para entender o que é preciso fazer, como se podem lançar os fundamentos para uma nova família aberta ao respeito de todos os seus membros, não mais fundada sobre a exploração da capacidade de sacrifício da mulher, mas que assegure a todos um alimento afetivo, solidário.

Em vez disso, seja texto, seja nos debates, de mulheres, de nós, fala-se muito pouco.

Como se as mães, as filhas, as avós, as esposas, isto é, o coração das famílias, não fizessem parte da Igreja, daquela Igreja que compreende o mundo, que pensa, que decide. Como se se pudesse, até mesmo a propósito da família, continuar fingindo que as mulheres não existem.

Como se se pudesse continuar esquecendo o olhar novo, a relação inédita e revolucionária que Jesus teve para com as mulheres.

As famílias no mundo são muito diferentes, mas em todas são as mulheres que desempenham o papel mais importante e decisivo para garantir a sua solidez e durabilidade. E, quando se fala de famílias, não se deveria falar sempre e só de matrimónio: está crescendo o número de famílias compostas por uma mãe sozinha e pelos seus filhos.

São as mulheres, de fato, que permanecem sempre ao lado dos filhos, mesmo que doentes, desabilitados, fruto de violência. Essas mulheres, essas mães quase nunca fizeram cursos de teologia, muitas vezes não são nem mesmo casadas, mas dão um exemplo admirável de comportamento cristão.

Se vocês, Padres sinodais, não lhes dirigirem a atenção, se você não as escutarem, vocês correm o risco de fazer com que elas se sintam ainda mais desgraçadas porque a sua família é tão diferente daquela que vocês falam. Ainda mais sozinhas.

Vocês, de fato, falam muito frequentemente de uma família abstrata, uma família perfeita, mas que não existe, uma família que não tem nada a ver com as famílias de verdade que Jesus encontra ou de que fala.

Uma família tão perfeita que parece quase não precisar da sua misericórdia, nem da sua palavra: «Eu não vim para os sãos, mas sim para os doentes, não para os justos, mas sim para os pecadores.»

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