terça-feira, 27 de outubro de 2015

No final do sínodo, nem Kasper e nem Müller, o que se impõe é o consenso entre conservadores e reformistas


A perspectiva estava muito alta. Havia tantas expectativas colocadas sobre as resoluções do Sínodo da Família (que durou nada menos que dois anos), que suas conclusões ficaram curtas à força. Daí que o documento final, aprovado pela assembleia sinodal, desaponte uns e outros. Aos moderados e progressistas (majoritários na aula), porque não oferece soluções nem aos gays, nem aos divorciados em segunda união. E aos conservadores, porque lhes parece muito o mero fato da questão ter sido apresentada e ter ficado em aberto frente ao futuro.
 
José Manuel Vidal, em Religión Digital, 25-10-2015.

Não vence nem Walter Kasper, o chefe dos alinhamentos do setor reformista, nem Gerhard Müller, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, guardião da ortodoxia e referência do setor conservador. Em termos futebolísticos (caso me permitam a irreverência da comparação), um empate. E as espadas continuam erguidas entre as duas sensibilidades. E enquanto houver espadas ao alto, o Papa, guardião da comunhão eclesial, não poderá definir e nem se inclinar, para evitar cismas e rupturas.

O Sínodo foi encerrado com um discurso do Papa muito aplaudido e um documento final de 94 pontos, que foram todos aprovados por mais de dois terços dos votos. “Não houve vencedores, nem vencidos”, proclamou, em coletiva de imprensa, o cardeal Schönborn, arcebispo de Viena e um dos sinodais de maior prestígio. É amigo de Bento XVI, mas também de Francisco. E, por isso, esforça-se para ver, no documento final, a parte boa. No entanto, prevê que “alguns se sentirão decepcionados”. Para não dizer, muitos ou todos.

Em sua avaliação, os aspectos positivos são fundamentalmente dois. Em primeiro lugar, o núcleo da mensagem é um canto à família, “um sim à família”, a qual os sinodais não veem como “um modelo superado”, mas, ao contrário, uma maravilha natural, que resiste o passar do tempo como nenhuma outra instituição e que continua sendo válida para a sociedade moderna. E a prova dos nove da família, segundo o purpurado de Viena, é que continua se comportando como “a rede mais segura em tempos de crise”.

Em segundo lugar, há duas palavras que, para o prelado austríaco, retratam a perfeição do documento sinodal: discernimento e acompanhamento. Ou seja, a família é bela, mas também frágil. É linda, mas tem feridas. Uma rosa com espinhos. Por isso, precisa de acompanhamento. Dito de outro modo, proximidade, ternura, cuidados, consciência das dificuldades e dos desafios.

E também precisa de discernimento. Uma palavra muito jesuítica e muito utilizada nos exercícios de Santo Inácio. Trata-se de acompanhar as famílias para poder discernir, em cada caso e com conhecimento de causa, o que elas necessitam e que medidas concretas podem ser tomadas.

Quanto ao acompanhamento e discernimento, o documento não contempla saídas concretas para as duas situações mais complexas da moral matrimonial e sexual: a comunhão aos divorciados em segunda união e os homossexuais.

Dos gays apenas se fala e, quando isso é feito, é para repetir a doutrina clássica, a de sempre, a do Catecismo: respeito e misericórdia com o pecador, mas sem absolvição de seu pecado. Para o Sínodo, os casais homossexuais não são famílias no sentido católico do termo. E, portanto, a tendência homossexual continua sendo considerada antinatural. “Que pouca misericórdia é essa”, pensarão muitos dentro e fora da instituição.

Aborda-se um pouco mais o tema da eventual comunhão aos divorciados em segunda união. No entanto, aqui, também não se quis dizer um sim ou um não contundentes. E se optou em “oferecer critérios fundamentais para o discernimento de cada situação”. Porque, como disse Schönborn, “diante de situações diversas, só cabem respostas diferentes”. E apropriadas para cada caso.

Respostas que ficam, pois, nas mãos de cada bispo. Aí está o avanço a respeito da práxis anterior, na qual a resposta era sempre o não e, além disso, só podia ser dada por Roma. Um passo adiante na descentralização. A pastoral estende a mão às famílias em dificuldade, mas se mantém firme na doutrina de sempre. Misericórdia sem mudanças doutrinais. Algo assim como a quadratura do círculo católico.

O Papa tem a última palavra. Certamente, publicará uma exortação, baseando-se no documento sinodal, mas enxergando além. Aplicando aos “descartados” da Igreja uma dose maior de misericórdia. De fato, em seu discurso de encerramento, quis deixar bem claro que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas, sim, o espírito”.

Também exaltou a liberdade de expressão dos padres sinodais, mas criticou alguns “métodos não totalmente benevolentes” e reiterou que “o dever da Igreja não é distribuir condenações ou anátemas, mas, ao contrário, a misericórdia de Deus”. Francisco, o misericordioso.

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